Atolados entre Mato Queimado e Caibaté

Bom, conforme relatado no post anterior, conseguimos por fim atravessar o rio Uruguai entre Alba Posse (Argentina) e Porto Mauá (RS) na segunda balsa da tarde, já que a primeira perdemos pelo imbróglio burocrático na aduana.

Tudo certo, e rumamos a Santa Rosa – maior cidade por perto – abastecer nosso companheiro fiel isopor (farei um post apenas sobre ele) em algum supermercado e seguir viagem até São Miguel das Missões, a maior ruína de uma redução jesuítica no Brasil, tombada como Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Sabendo que o 3G não pegaria em grande parte da rota, antes mesmo de sair de Santa Rosa já definimos o rumo a seguir. E aí veio o duro aprendizado de seguir o Googlemaps, mas quando houver placas, siga as placas… sem titubear.

Pelo mapa, já havíamos visto que o melhor caminho para São Miguel das Missões seria passando por Santo Ângelo (esta também fora uma redução jesuítica), pegando a RS-344 + BR-392 e logo a BR-285. Mas fui seguindo as indicações do Googlemaps cegamente, o que se provou um grande erro. Esta foi a rota traçada por ele:

Captura de Tela 2015-09-05 às 03.16.07

Um caminho visivelmente mais curto, a RS-307 é uma estrada não duplicada, que passa por dentro de cidades pequenas (coisa mais que comum ao longo dos nossos 8.100 km percorridos), mas sem muito trânsito, e ok pra trafegar. Ja a RS-165… era outra história:

Trecho da rodovia RS-165 entre a RS-307 e Cerro Largo

Trecho da rodovia RS-165 entre a RS-307 e Cerro Largo

Trecho da rodovia RS-165 entre a RS-307 e Cerro Largo

Trecho da rodovia RS-165 entre a RS-307 e Cerro Largo

Trecho da rodovia RS-165 entre a RS-307 e Cerro Largo

Trecho da rodovia RS-165 entre a RS-307 e Cerro Largo

Visual bonito, foi mesmo um passeio legal. Mas pense 70 km disso, e nós correndo contra o tempo pra conseguir chegar a São Miguel a tempo do espetáculo noturno que rola todos dias nas ruínas a partir das 20h (19h nos meses de inverno – Mais info aqui: http://www.saomiguel.rs.gov.br/portal1/municipio/ponto_turistico.asp?iIdMun=100143378).

O atoleiro

A coisa ficou feia mesma quando, depois de cruzar o Rio Ijuí (visual lindo, uma pena não termos foto), a voz vinda do celular manda virar à esquerda na Estrada Rincão dos Muller. “Gu, fodeu… isso tá errado. Eu falei pra virarmos à esquerda na placa pra Santo Ângelo”, falava a Deni. Ela iria repetir esse lance da placa para Santo Ângelo mais umas 17 vezes até chegarmos à pousada – a tal placa estava no cruzamento entre a RS-165 e a BR-392, mas eu fui teimoso e segui o Googlemaps.

Enquanto pensávamos quem seriam os tal Muller que batizavam a estrada, cruzávamos plantação, mais plantação, um arroio aqui, outro ali, tudo em terra, a no máximo 50 km/h. E quando estávamos quase chegando a Caibaté, a 1,5 km da RS-536, asfaltada, um luxo… a estrada estava bloqueada para a colocação de paralelepípedos.

Voltamos ao desvio, e no caminho perguntamos a um morador que passava se o desvio era ok:

“Olha, choveu ontem, hoje está essa garoa… não está muito boa, não. Até dá pra atravessar, é pouca coisa, mas é complicado”

O diálogo que se seguiu dentro do carro foi mais ou menos assim:

“-Gu, melhor a gente voltar lá na placa. -Mas, nena, é uma baita volta, mais de 1 hora… vamos perder o espetáculo. -Gu, você escutou o cara. -Sim… ele disse que talvez a gente consiga. Vamos tentar! -Acho melhor não. -Eu acho que dá; se não der, a gente volta.”

O “se não der a gente volta” durou até o primeiro atoleiro, que conseguimos atravessar embalados, patinando de um lado para o outro (devia ter filmado, se não estivesse tão tenso…). A estradinha era de barro a esta altura, e com espaço para um carro só. Ladeada de pequenas plantações, manobrar seria chatinho. E assim optamos (optei 😛 ) por seguir. Até o segundo atoleiro, logo depois de uma curva…

…o Palio lutou, patinamos, tentamos… mas não deu. Ficamos preso em 50 cm de lama, vizinhos de uma plantação de batata que ao longo do tempo de espera virou banheiro. Peço perdão simbólico ao dono da plantação.

O local exato em GPS da peripécia é este: -28.264383, -54.643816. E o visual, assim:

Lugar onde atolamos depois de pegar um desvio da estrada Estrada Rincão dos Muller, que estava em obras perto de Caibaté, e que ligava à Estrada do Rincão Seco, perto de Mato Queimado

Lugar onde atolamos depois de pegar um desvio da estrada Estrada Rincão dos Muller, que estava em obras perto de Caibaté, e que ligava à Estrada do Rincão Seco, perto de Mato Queimado

Olhando de manhã, pela internet, que estávamos a meros 110 metros de uma casa, ficamos putos, mas do só viamos o que parecia um grande bosque – “vai saber onde essa merda acaba?” – e ninguém respondia a buzinadas, palmas e pedidos de ajuda.

O socorro

Sem saber exatamente para quem ligar, ligamos para a Brigada Militar (a PM no Rio Grande do Sul tem outro nome). Explicamos a situação, ressaltando saber que aquele não era o trabalho deles, mas não sabíamos a quem recorrer. Disseram que mandariam uma viatura.

Uma hora se passou e nada. Ligamos novamente, e se surpreendem que a viatura não veio. Nova explicação de onde estávamos, e disseram que mandariam o carro.

Mais uma hora – nem preciso dizer que o espetáculo noturno já era. Nova ligação, e a resposta que a viatura foi e não nos encontrou. Tentariam de novo. 3 horas depois da primeira ligação, ainda estávamos atolados, escolhendo entre morrer de calor ou mordidos por mosquitos, e usando sacolas plásticas de supermercados nos pés pra conseguir sair do carro sem transformá-lo em um lamaçal, por dentro, ao voltar. Não me orgulho de ter deixado lixo no meio daquela paisagem.

Na terceira ligação, o brigadiano que atendeu disse que não podiam fazer nada a respeito (só agora???), mas passou o contato do Secretário de Obras de Mato Queimado, Sr. Rogério. Este, muito solícito: “Não te preocupa que vou mandar um trator te tirar daí”.

Trator chega para nos rebocar do atoleiro do desvio da Estrada Rincão dos Muller

Luz no fim do túnel para nos retirar do atoleiro

O senhor que nos rebocou – cujo nome, infelizmente esqueci por ser muito diferente do usual – recusou um dinheiro que ofereci por ter nos resgatado às 22h45 da noite de uma segunda-feira. Estávamos a menos de 200 metros da Estrada do Rincão Seca, esta em estado muito melhor… Ainda nos perdemos um pouco em Mato Queimado antes de pegar o rumo certo na RS-536, chegarmos exaustos à Pousada das Missões (vizinha às ruínas, confortável, o dono manja muito e deu várias dicas… recomendo!)

De manhã fui dar um banho no Palio só pra poder entrar e sair sem se sujar. O resultado era este:

Estado do Palio do dia seguinte ao atoleiro

Estado do Palio do dia seguinte ao atoleiro

3 thoughts on “Atolados entre Mato Queimado e Caibaté

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